O que fazer quando uma pessoa com baixa auto estima se apaixona?


 

Tem um tempo desde o meu último desabafo neste blog. A minha mudança de vida, no último período, culminou no término do meu relacionamento, que sempre achei que era bom, mas depois de um certo tempo percebi que não era bem assim. Inclusive, havia traços de um relacionamento abusivo em que eu era exigida constantemente por ter atitudes que asseguravam a segurança do outro e que essa segurança significava se auto afirmar a partir da minha anulação. A estética do "bonzinho" nem sempre nos deixa enxergar a manipulação por trás de atitudes e palavras e demorei dois anos e meio para entender o que aquilo tudo significava.

Se por um lado, saiu um peso de minhas costas, por outro, o medo da rejeição e de ficar sozinha voltou a me assombrar, afinal, tenho 35 anos e ainda moro com a minha mãe. Um adendo, ser a filha mais nova e ser mulher as vezes é um fardo. Significa que todos esperam sempre que deixe a sua vida meio de lado para "salvar" a família, mas isso é papo para outro momento.

Ocorre que eu comecei a sentir sintomas de paixão, após conhecer uma pessoa pelo Tinder. Sim, não é melhor lugar para conhecer pessoas, mas foi o lugar onde deu pra dar uma distraída e me aliviar do tédio de estar em isolamento social. Tudo começou com um oi, que evoluiu para longas conversas diárias e um interesse profundo sobre o outro, e que depois evoluiu para excitação extrema até o primeiro encontro, que aconteceu de forma prematura, somente após dois dias de conversa pelo referido aplicativo. O primeiro encontro foi extremamente intenso, o segundo mais e assim por diante, até vir a primeira desconfiança: um encontro desmarcado. Apesar do motivo ser de fácil compreensão e justificativa, a mãe estaria com suspeita de COVID-19 e sou e moro com pessoas do grupo de risco, no entanto, percebi que no encontro posterior algo estava diferente. A intensidade deu uma diminuída, assim como as conversas, apesar de terem mantido seu ritmo diário. No período de espera para sair o resultado do exame de Covid-19 da mãe dele, também compartilhamos outro período de apreensão, minha menstruação atrasou e havia grande possibilidade de eu ter engravidado durante os nossos encontros. Sim, demos mole e fico me remoendo todos os dias por isso.

Tudo isso aconteceu em um espaço de 15 dias. Parecia que estava há meses com essa pessoa, no entanto, como tudo que pega fogo rápido também acaba rápido. O início pareceu uma imensa montanha de palha que bastou que uma ponta de cigarro caísse ao lado para o fogo consumir toda a palha, em questão de minutos. Assim pareceu o nosso relacionamento, coisa de amor de verão. Apesar das conversas diárias permanecerem e uma tentativa vã de continuar o que estava tão bom, devo admitir, parece que a química passou como num passe de mágica, ou eu voltei a racionalizar as coisas?Acho que foi um pouco de cada, considerando a carência de um término de namoro no início da pandemia, estarmos há 7 meses em isolamento social, o sentir falta de conversar horas com alguém e poder contar um pouco da vida e, principalmente, o contato físico, sim, somos seres sociais e precisamos estar em contato com outas pessoas. Tudo isso possibilitou que a mágica acontecesse... me apaixonei e agora estou caindo na real, lidando com os meus medos e confesso são eles que estão comandando as coisas por aqui. Começou com uma insegurança ali, por conta do encontro desmarcado, evoluiu para mil ideias conspiratórias de que ele estivesse saindo com outra pessoa e que iria me rejeitar, até que a racionalidade tomou conta deste corpo novamente. Em nenhum momento foi prometido nada, isso sequer chegou a ser conversado, então por que cargas d'agua eu comecei a me colocar novamente nessa posição de quem só espera, de quem está entregue de tal forma que começa a não se permitir a conversar e sair com outras pessoas? Como pude me colocar nesse lugar só com 15 dias de papos diários e alguns encontros, todos extremamente sexuais. Não entro no mérito do caráter sexual dos encontros, mas vou me ater ao fato que, ao menor aceno de cuidado, eu, pessoa carente, me deixo levar por uma situação que nem está tão nítida assim e que as cartas nem estão colocadas na mesa. Isto é, os termos dessa "relação" não estão dados e e eu não consigo nem saber se isso vai me machucar ou se vai atender aos meus desejos e anseios. Eu simplesmente me entreguei.

Para quem for ler este texto, não, essa situação não se arrasta meses, não tem nem um mês que conheço a tal pessoa, mas, apesar de tudo, essa relação "fake", ou sei lá o que é isso, me permitiu entrar em contato com minhas angústias, meus receios, reconhecer que eles sempre estão aqui e preciso de calma e dar tempo ao tempo para identificá-los e compreender sua forma de atuação em cada situação em que me meto. Se, em meu último relacionamento, percebi que a forma com a qual consegui lidar com esses sentimentos foi me adaptando, racionalizando tanto um relacionamento que sufoquei o sentir, por outro lado, contribui também para minha anulação dentro daquele relacionamento. Eu não mereço não sentir, eu quero sentir, eu tenho fogo dentro de mim e tenho que dar vazão a ele, não apagá-lo. É a ânsia de viver que dá sentido a vida, sim, são os sonhos e expectativas que colorem a nossa vida e permitem que sigamos em frente, mesmo diante de todo caos que o mundo apresenta ser.

Sendo assim, descobri agora o que quero, no entanto, preciso equilibrar todo o meu lado sonhador com o meu lado racional. Quero viver um amor, quero muito alguém que valha a pena, mas não será qualquer pessoa que, por apenas me mandar mensagens diárias, ter cuidado ao desmarcar encontros previamente agendados, perguntar o que eu quero, que essa pessoa está querendo ou será a pessoa com que eu vá viver essa relação. Na realidade voltamos aquela situação em que valorizamos muito o que deveria ser obrigação em qualquer relação, mesmo que ela não envolva enlace afetivo de fato (refiro-me a relacionamentos estáveis), mas envolve respeito com o outro. Acho que foi esse aspecto da relação que me deixou tão apegada ao sujeito, mesmo que, em meu último relacionamento, por ter me anulado, permiti que meu ex-namorado não me respeitasse, muitas vezes. Isso não aconteceu do modo clássico, com traições ou grosserias à luz do dia, mas sim aquelas sutis da vida cotidiana, em que um indivíduo aos poucos mina sua auto estima e o faz sempre a partir de algumas chantagens emocionais. Mas isso só aconteceu porque eu permiti! Eu deixei, eu me anulei, eu que estava cansada de me deixar levar por situações em que me enfiava de cabeça e nunca racionalizava os termos das relações em que me envolvia e sempre saía machucada, me deixei me levar por uma racionalidade "irracional" em que acreditava que só elencar as qualidades de uma pessoa era o ideal, ou me deixar levar pela possibilidade de um relacionamento estável a qualquer custo, mesmo que isso anulasse o meu sentir, mesmo que isso acabasse com o que eu mais gosto em mim. 

Eu tenho certeza que depois que reler este desabafo ficarei confusa, mas digo de antemão: trata-se de uma tentativa de organizar meus pensamentos e sentimentos sobre a relação (se é que da pra chamar assim) que estou vivendo e identificar quais sentimentos estão em jogo. Consegui identificar o medo da rejeição, insegurança e carência como os ordenadores das minhas atitudes até aqui, agora falta eu conseguir delimitar o que eu quero e se a tal pessoa consegue me oferecer isso. Melhor, se a pessoa gostaria de oferecer algo além do que temos hoje (uma boa diversão sexual), mas que ainda assim, por mais que eu dependa do outro para que uma relação aconteça, eu não preciso ficar tão a mercê das vontades alheias. Está na hora de decidir, eu quero ter uma relação com essa pessoa? Se decidir que sim, está na hora de comunicar o que eu quero e entender que posso receber uma negativa e que está tudo bem, faz parte das regras do jogo - só está suscetível a rejeição quem se permite apaixonar, não é mesmo?

Que eu consiga coragem para fazer o necessário e que aconteça o que seja melhor pra mim!


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